quinta-feira, 5 de abril de 2012

A SUZI MARAVILHA SUMIU




Bodão levantou seu corpanzil com muita dificuldade e se equilibrou no meio fio como se estivesse se equilibrando numa corda bamba. Cambaleou até o meio da calçada, olhou para frente e visualizou a Praça João Lisboa, estava na Rua do Egito. Ainda cambaleando, sempre segurando uma garrafa de 51, atravessou a Praça e desceu a Magalhães de Almeida.
Na descida, de vez em quando, parava e olhava para trás, fazia gestos com os braços como se estivesse chamando alguém que não conseguia acompanhá-lo. Contornou o Mercado da Praia Grande e se dirigiu à Fonte das Pedras. Entrou pela lateral por um buraco na cerca, mas só depois de gesticular e voltar a chamar alguém invisível que supostamente o seguia.
Mergulhou depois no que parecia um barraco feito de amontoados de papelão e coberto com uma telha velha de Brasilit. Afastou de novo a porta de papelão e colocando a cabeça para fora gritou:
—Ei Quincas!
―Ei Quincas Berro D’Água! Eh! Você mesmo, cara!
―Tá espantado? Tá? Só queria ver essa sua cara de espanto.
―É, porque você tá espantado, não tá?
―Oh, Quincas! Fala sério.
―Você viu a Suzi Maravilha por aí?
―Ei Quincas, não precisa se esconder não cara! Pra que?
―É, pra que. Eu sei que você não existe.
―É cara, você não existe mesmo.
―O que? Outra cara de espanto? Essa eu também queria ver.
―Foi aquele cara do bigode, o Amado .
―É, o Jorge Amado. Lembra dele? Grande escritor. Ele inventou você.
―Isso, você é um personagem de um livro dele.
―O que? Qual livro?
―Ih rapaz, agora você me pegou, vou ficar devendo esta.
―O que rapaz? Criou? Então agora ele é Deus? Só faltava essa!
―Ei Quincas, não muda de assunto cara. Rapaz, presta atenção, você viu ou não viu a Suzi Maravilha por aí?
—O que? Por que Suzi Maravilha?
—Ah, vou contar. Foi por causa do jeito como ela chegou aqui. Quincas, parece que foi ontem, ainda me lembro direitinho, o jeito como ela apareceu aqui no beco.
—Naquele dia bem cedo, eu acabava de sair de dentro do barraco. Quando empurrei a porta de papelão me deparei com aquela mulher deitada sobre um casacão vermelho, bem ali na minha frente. Era um casacão de pele de lontra, como ela gostava de se gabar. Estava com um vestidão preto, parecia que saíra de uma grande festa.
—Quincas, o que me chamou a atenção foi a calcinha, era vermelha e estava por cima do vestidão.
—Não ri não, Quincas. Parece engraçado, mas não é, foi triste. Foi por isso que ela fugiu daquela festa. As pessoas estavam rindo dela. Ela estava bebinha da Silva. Até hoje ela não consegue entender como colocou a calcinha por cima daquele vestido.
—Ela abriu os olhos, me olhou e disse: —Eu sou a Suzi Maravilha.
―Oh! Quincas! Escuta cara! Para de beber um pouquinho e escuta, faz esse favor.
―Sabe por que estou perguntando a você sobre a Suzi? Não sabe?
―Psiu...! Vem cá! Eu acho que ela se mandou!
―Ela se mandou, viu oh Quincas! Ela se foi.
―Igual a você, ela desistiu.
―Certo, certo, igual, igual não.
―Eu sei, você veio para cá e ficou, não voltou mais lá pra cima. Mas eu acho que ela não suportou ficar longe do uisque on the rocks. Ó, on the rocks, gostou?  Ela fazia careta pra cachaça. Sempre colocava o dedinho dentro do copo fazendo movimentos de mexer o gelo. Não tinha gelo Quincas. Onde encontrar gelo aqui na calçada do beco, onde?
—Ela voltou Quincas, lá pros lençóis de linho, pro colchão macio.
—A Suzi só falava nisso, nos colares de pérolas, nos anéis de diamante. Ela enjoou a cachaça.
—Quincas, ela não levou o casaco vermelho. É, aquele de pele de lontra que ela trouxe para se cobrir.
—Quincas, me diz, ela enjoou a cachaça, não foi? Não foi?
—Eu sei Quincas, que você não pode me responder, afinal você nem existe, não é? Oh amigo Quincas me desculpe.
—Boa noite..!
—Ah...?!

AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ASSASSINATO À BEIRA MAR




Ao cair da tarde quando o sol estava mais brando e mais próximo da linha do horizonte por onde deveria se esgueirar para iluminar outras paradas, outros lugares em outro hemisfério, como diriam os mais estudados, já que os poetas diriam talvez que ele se escondia por traz da linha do horizonte, deixando espaço para a lua iluminar os casais enamorados, Dora se esforçava para organizar a pose para uma foto, de um bando de jovens estudantes, que se preparavam para a colação de grau. Seriam fotos de várias situações ou poses que iriam para o álbum de fotografia ou para os slides de apresentação durante o baile de formatura.
Cansada se recostou à mureta que separava a Praça Gonçalves Dias da Praça Maria Aragão que fica alguns metros mais abaixo. Olhando em direção ao mar avistou um casal que displicentemente parecia fazer amor recostado à mureta que os impedia de cair na água. Eles estavam sentados no banco de cimento que circundava o fundo da praça.
A distância era enorme, mais de cinqüenta metros, será que estava vendo bem? Mirou a máquina fotográfica em direção ao casal e clik. Virou-se de novo para o bando de garotas que brincavam alegremente e não viram o que Dora vira segundos atrás.
O tempo passou rápido e o sol se foi mesmo, como ameaçava, deixando um tom vermelho amarelado queimando as nuvens por cima do oceano que perdia aquele tom azulado, para ganhar uma cor cinzenta que iria escurecendo até ficar totalmente negro se confundindo com o céu, era hora de ir embora.
No outro dia, lá estava Dora de novo na mesma praça fazendo fotos de outro grupo de formandos. Enquanto eles se preparavam dentro do coreto de onde saiam a maioria das fotos das turmas de formandos, ela se recostou na mureta  e instintivamente voltou os olhos para o lado do mar, parecendo que sabia o que estava procurando... (continua)