sábado, 27 de novembro de 2010

O MENDIGO E O LOBISOMEM APAIXONADO (SÍNTESE)

Cidão dobrou a esquina, entrou na Rua dos Rouxinóis e andou mais uns cinquenta metros antes de avistar um objeto estranho caído, do outro lado da rua, encostado ao meio fio. Parou. Mesmo cansado, não conseguiu vencer a curiosidade e andou até lá. Chegando perto, curvou o corpo e rapidamente apanhou o objeto caído. Era um sapato.
―Uhnn, tá novinho, é marrom e é chique também! Pensou enquanto virava e revirava o sapado como se estivesse olhando uma coisa rara.
Olhou em volta, depois caminhou para todos os lados tentando achar o outro par e nada. De qualquer jeito embrulhou-o junto com seus cobertores e continuou andando até dobrar a outra esquina, na Pintassilgos.

Enquanto isso no edifício que ficava bem em frente ao lugar onde o Cidão encontrara o sapato de um pé só, no terceiro andar, Ricardo que morava no apartamento 301, estava aflito. Já procurara exaustivamente, em baixo dos móveis, dentro dos armários, do guarda roupas, até dentro do fogão procurara e, nada. Ele se postou na porta do quarto e ficou pensativo, puxando pela memória, para ver se conseguia lembrar onde colocara o outro par de sapatos.
O gato miou bem embaixo da janela, e neste momento ele se lembrou. Num pulo só, alcançou a janela do quarto e olhou para baixo, não enxergando nada.

Finalmente se lembrara. Aquele gato chato estava miando sem parar na janela do seu quarto. Estava apressado e neste meio tempo aparece o gato na janela miando alto, um miado estridente que o deixou irritado. Não teve dúvidas, pegou o sapato e atirou no gato, acertando-o em cheio. Ele caiu e conseguiu se agarrar à janela do apartamento logo  abaixo, mas o sapato sumira.
Livre daquele animal horrível que lhe aparecera não se sabe de onde, somente para azarar sua noite, continuou a se vestir. Encontrou a camisa nova, amarela, que era a sua cor preferida. Já a gravata era marrom com detalhes vermelhos, quase imperceptíveis. Estava perfeito. Agora que vestira as meias, faltavam-lhe os sapatos e, foi daí que começou o seu suplício.
O edifício era separado da rua, pela calçada e por um muro alto. Em baixo das janelas, tinha um gramado também pouco extenso, uns dois metros no máximo. Se o sapato tivesse caído ali, poderia ser visto de cima. Não caíra no jardim, então só poderia estar na rua.
Ricardo desceu correndo as escadas do prédio, até o térreo. Colocou o chinelo para segurar a porta de entrada, pois na pressa esquecera as chaves.
Quando chegou à rua não percebeu Cidão, quebrando a esquina, e entrando na Rua dos Pintassilgos. Procurou por todos os lados onde previra que o sapato caíra e nada. Sentou-se junto ao meio fio e ficou ali por alguns minutos, com as mãos cobrindo o rosto e pensando em como iria agora à festa de aniversário da Rosana, filha do gerente da empresa onde trabalhava.
. Era estranho mesmo. O que fazia aquele homem de terno, sentado junto ao meio fio, e sem sapatos?

O gerente o convidara por que sabia que ele e sua filha estavam começando um relacionamento e fazia muito gosto que os dois namorassem. Havia, porém outro candidato à namorado da Rosana que era o Vicente.
O Vicente era um cara chato, pegajoso, que vivia contando piadas de mau gosto das quais somente ele achava graça.
Mas, o Vicente não se fazia de rogado, ainda dava em cima da filha do gerente mesmo a contragosto deste.

Ricardo levantou-se e cabisbaixo, voltou para o apartamento. Sentado na cama pensou no azar que aquele gato lhe trouxera.
―E agora, como vou à festa? Joguei os sapatos velhos no lixo depois que comprei estes novos, e a esta hora da noite não vou vasculhar a lixeira para procurá-los. Estou mesmo é encrencado. 10e 20. Estou atrasado. O Vicente já deve estar azarando minha garota. Eu tenho que ir, de qualquer jeito. Ela não é minha garota ainda, mas tem tudo pra ser. Não posso perder para aquele chato.. Já sei. Pegou o telefone e ligou.

―Aló, respondeu do outro lado.
―Edu?
―Sim, é ele. Ricardo?
―Sou eu mesmo. Cara, ainda bem que você não saiu, preciso de um favorzão seu.
Me empresta os seus sapatos?
―Emprestar os meus sapatos? E como eu vou fazer para sair? Onde estão os seus?
―Rapaz, é meu emprego que está em jogo. Só você pode me ajudar agora. Tó contando com a sua amizade.
Silêncio total.
―Alô, alô, Edu? Você ainda está ai?
―Olha, cara vou quebrar o seu galho, por duzentas pratas.
―O que? Duzentos reais? Isto é roubo! Você é ou não é meu amigo?
―Eu estou precisando de duzentos reais, você tem que ir à festa. Negócio fechado?
―Tá bom, tá bom! Tô passando aí. Me espere.
Já no carro indo para o apartamento do Edu ele pensava.

O outro rapaz era um pouco mais baixo, portanto os sapatos eram menores. Ficaram apertadíssimos. Mas valia o sacrifício. Era pelo amor da Rosana.
Desceu as escadas do edifício com aqueles sapatos lhe apertando os pés.

Enfim, chegou. Foi recebido com muita festa pelo Neres que logo o colocou nos braços da filha. Chegara enfim sua tábua de salvação. A música era convidativa. Sentou-se para conversar com a quase futura namorada em uma mesa, quando o Vicente se aproximou e a convidou para dançar.
O momento foi tenso, ela olhou para ele com um ar de interrogação.
―Vou? Parecia perguntar.
A mão do outro ainda estava estendida quando ele finalmente entendeu a expressão de desespero da menina. Então se levantou rapidamente:
―Espera ai, amigo, esta dança é minha.
O Vicente observava tudo. Quando finalmente eles se sentaram e ele observou que o outro estava sofrendo por causa dos sapatos apertados, esperou até que  os tirasse para poder se aproximar e convidar a moça para dançar.
Chegou sorrateiramente, pegou a mão da moça e a convidou para dançar. Ricardo até que tentou evitar, mas os seus pés se atrapalharam com os sapatos que ele não conseguia achar debaixo da mesa.

O pai da menina espumava de raiva, na cadeira ao lado e Ricardo evitava encará-lo. Olhava pelos cantos dos olhos e via que estava perdendo terreno para o outro.
No salão todos queriam dançar com a aniversariante, mas sempre ela voltava para os braços do Vicente.
Em dado momento o Neres não agüentou e falou:
―E aí, cara! Você vai me deixar nesta roubada? Você vai perder pra aquele cara de pau? Eu me enganei com você? Hein!?
Quando os dois se sentaram o pai da moça não suportou ficar olhando para homem que ele considerava um perdedor e se afastou com a desculpa de ir ao banheiro.
Do outro lado do salão de festas, o rival olhava tudo, preocupado.
―O que será que aqueles dois tanto conversam. Preciso dar um jeito de separar este casalzinho. Não posso perder para aquele cara, justo agora que estava tudo dando certo para mim.

Ricardo caminhou cabisbaixo para a porta de saída. Deu uma última olhada para trás e percebeu o Vicente se dirigindo para sua amada. Quis voltar, mas os pés estavam muito doloridos, não agüentou.
Saiu desanimado:
―Puxa! Perdi minha garota e ainda vou ter que pagar duzentos reais para o Edu.
Tudo isto para nada. Pensava enquanto andava até o carro. E tem mais ainda, vou perder meu emprego. Do jeito que o Neres estava furioso... Não vou nem aparecer segunda- feira no escritório. Depois passo lá para pegar minhas coisas.

Ali, parado ao lado do carro, olhou o céu todo iluminado, e viu lua branca e brilhante bem em cima do edifício onde morava o seu chefe, era lua cheia, passava um pouco da meia noite,  pensou:
―É noite de lobisomem... Eu bem que poderia ser um agora. Invadiria aquela festa arrebataria minha amada e estrangularia o Vicente sob o olhar atônito dos convidados. O Neres ia ter um infarto.
Antes de entrar no carro, colocou as mãos em concha na boca em forma de trombone  e uivou bem alto com toda a força dos seus pulmões:
―AAUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuuu...
Lá dentro do salão, como o barulho era alto, ninguém escutou nada, os vizinhos também não, mas um calafrio percorreu o corpo das pessoas. Descendo pela nuca, se espalhou pelo corpo todo, deixando  o couro cabeludo esticado e os pelos dos braços eriçados. As pessoas se olharam sem entender nada.  Os cachorros sim, estes escutaram e se assustaram. Alguns mais afoitos correram para os portões e latiram em resposta, outros se esconderam bem no fundo de suas casinhas.

Chegando em casa, guardou o carro e subiu as escadas com os sapatos na mão e os pés doloridos. Já dentro do apartamento, se preparando para dormir, avistou o outro pé de sapato bem em cima do travesseiro. Pensando em todo o transtorno que tivera por causa daquele gato, e da perda do outro pé, foi até a janela e jogou o sapato o mais longe que pode. Esperou até que ouviu o barulho do baque na rua, depois colocou de novo a cabeça bem para fora do quarto pela janela e soltou de novo aquele mesmo e medonho uivo de instantes atrás.
―AAUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuuu...
Então como que com a alma lavada, deitou-se para dormir. Virou-se contra a janela e não percebeu as luzes dos outros apartamentos acenderem, as janelas se abrirem e algumas pessoas olhando para fora, procurando de onde teria vindo aquele grito horrível.
Cidão por sua vez, chegou ao lugar onde sempre fazia sua cama para dormir, armava alguns papelões, estendia um cobertor e se cobria com o outro.
Este lugar, refúgio de Cidão e Isa, era embaixo da passarela da Rua dos Beija-Flores. Tinha uma árvore ao lado onde às vezes ele armava uma rede, e se chovia colocava uma corda entre a árvore e a coluna da passarela fazendo um telhado com plásticos e papelões.
A Isa ainda não chegara. Estava demorando. Mas era assim mesmo. Já estava acostumado com ela. Algumas noites ela bebia demais e dormia onde caísse. Ela sabia que ele não demoraria para ir buscá-la, onde ela estivesse caída.  Levantá-la-ia do chão e a conduziria cambaleante até o refugio deles, junto à passarela.

Ele conhecia bem a história da mulher que era sua companheira há tantos anos na rua.
Já o Cidão fora trabalhador até o dia em que jogou o patrão de cima da laje de um prédio.
Desde este dia ele não mais se empregou. O homem não morreu e ele também nunca mais quis ser empregado. Estava revoltado. Assim, foi para as ruas.
Isa vinha um pouco cambaleante naquela noite, parava, se sentava um pouco junto ao meio fio, tomava um pouco de coragem, dava um impulso e andava mais um pouco. Passando em frente ao apartamento de Ricardo sentiu alguma coisa cair junto ao seu corpo bem no exato momento em que se sentava na calçada, passou a mão em direção ao barulho e pegou alguma coisa, era um sapato. Neste momento também escutou o uivo alucinante que vinha do edifício em sua frente. Ela não se abalou nem um pouco. Com o sapato enfiado na mão direita, se aprumou, empurrou o corpo para cima, ficou ereta e andou. Virou a esquina e foi se encontrar com o Cidão que já se preparava para ir buscá-la onde ela estivesse caída.
Ela foi chegando, cambaleando e caiu bem nos braços dele. Então ele a colocou para dormir na cama que tinha preparado horas antes. Quando ela se deitou, ele reparou no sapato que trazia. Descalçou a sua mão e verificou que aquele sapato era par do outro que achara antes.
Enquanto ela dormia, ele imaginava os dois chegando ao reggae. Ela com aquele vestido indiano que ganhara na semana passada. Camisa e calça ele já tinha, estava faltando os sapatos. Agora já estavam completos. Ela era mais  cuidadosa, sempre tinha uma sandalhinha guardada para uma ocasião destas.