sábado, 11 de setembro de 2010

QUANDO O SEU DIA CHEGAR ELA COM CERTEZA VAI SABER.

Logo cedo, me vi descendo a pé a rampa de acesso ao CEFET. Estranho, porque normalmente, todos os dias chegava de carro.


Olhei o pátio do estacionamento e ainda não havia nenhum carro estacionado ali. O guarda estava no seu posto esperando para soltar a corrente assim que chegasse o primeiro veículo. Na rua, o movimento era normal para aquela hora da manhã. Era cedo, mas o sol já estava alto e parecia iluminar com mais intensidade nessa manhã.

Estranhamente, pois nunca fizera isto, olhei para a bandeira e vi que ela estava hasteada a meio- pau. Nunca tinha lhe dado tanta atenção antes. Fiquei curioso, alguém falecera. As mortes no CEFET estão ficando frequentes atualmente. Quem teria sido desta vez?

A bandeira hasteada a meio-pau é às vezes o único aviso, e a notícia fica por conta dela, quem a vê sabe, quem não, ignora.

Há alguns anos atrás encontrei nos corredores do CEFET, a filha de um professor, meu vizinho, e, quando perguntei por ele, ela me respondeu com tristeza que ele falecera há uma semana.

― O senhor não olhou a bandeira hasteada a meio- pau?

Eu não precisava ter sido avisado, era só olhar a bandeira. Não. Não havia olhado, nunca me lembrava de olhá-la.

A bandeira tremulava apesar de eu não estar sentindo o vento. Alguns professores e funcionários começaram a chegar, uns andando, outros de carro, mas assim que chegavam ao pátio do estacionamento a primeira coisa que faziam era olhar para a bandeira, depois se reuniam, faziam comentários e entravam. Os alunos ao chegarem também a notaram, e em pequenos grupos comentavam o acontecido.

Alguém morrera, mas quem? Apesar de todo o movimento não consegui escutar o nome do falecido.

Aos poucos todos foram chegando, funcionários e alunos e o ritual era o mesmo,

olhavam para ela , faziam comentários e entravam.

Engraçado. Por que todos conspiravam contra mim? Por que todos sabiam e somente eu não?

Em dado momento me vi sozinho de novo no estacionamento, não conseguia entrar ou não deveria entrar. Fiquei ali, olhava para ela, lá em cima a meio- pau e para a porta de entrada, e aquela flâmula tremulante parecia me sugar.

Senti-me sendo afastado lentamente da entrada e flutuando no ar.

Todos sabiam quem morrera, a bandeira a meio- pau lhes tinha avisado.



Autor: Edison Rodrigues Paulino -28de maio de 1999.

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