segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PEQUENO RAIO DE LUZ

Arqueólogos do mundo inteiro debruçaram-se sobre uma descoberta incrível, a maior de todas em séculos.


Alguns arqueólogos cavavam há anos em um terreno onde pensavam que encontrariam muitos tesouros arqueológicos, fósseis raríssimos que há milhares de anos, se encontravam desaparecidos; uma civilização muito antiga teria existido por ali.

Depois de algumas toneladas de terra retiradas do local, eis que surge o primeiro achado, uma urna lacrada com algumas frases ininteligíveis devido à ação do tempo, mas com algum esforço, ainda podiam se decifrar duas palavras que dariam sentido à frase se estivesse completa: ...RESPEITO...DIGNIDADE... Uma sombra passou por todos os semblantes, como se dissessem:

-Temos que tomar cuidado para que isto não seja divulgado para todo o mundo.

Todos sabiam que aquela urna podia guardar uma preciosidade histórica. Ela estava para ser aberta, o momento era único. Eles foram chamados em segredo, estavam ali para presenciar algo de muita relevância histórica, mas também poderia ser um estopim se caísse em domínio público. Era melhor que avaliassem bem antes, para divulgar depois.

Terrível ou não aquela descoberta poderia colocá-los no patamar dos maiores arqueólogos de toda a história da humanidade.

Ao ser aberta sob os olhares atônitos de todos, a urna mostrou alguma coisa disforme, estranha, nada que se parecesse com algo conhecido, nenhum objeto, nenhuma obra de arte, nada se parecia com aquilo, não havia nada para comparar.

Os cientistas viraram e reviraram, mas nada. O que seria? Que nome tivera? Ou que nome dariam?

No afã de desvendar o grande mistério, o chefe da expedição chamou mais para perto o arqueólogo mais famoso e mais antigo.

Um pouco vacilante, ele se chegou mais para perto, e com as mãos tremulas, pegou a urna, repetiu todos os passos que já haviam sido dados e, nada.

Revirou a memória e, de súbito recuando com o semblante amedrontado, um tanto apavorado, escorou-se nos braços dos companheiros para não cair. Tentou balbuciar uma palavra, mas o medo tomou conta do seu ser. Não, não era uma bomba que estivesse para ser detonada a qualquer momento, não, era algo mais terrível. Aterrorizado como estava, tudo o que conseguiu, lá no fundo da garganta, quase como um gemido, foi balbuciar alguma coisa como:

- ÉÉÉ...Parou, olhou em volta, como que não quisesse ser ouvido e continuou...TIII..CAAA...

O som abafado e um tanto rouco só pode ser entendido porque todos resolveram chegar os ouvidos bem próximos da sua boca. Mesmo assim, eles não tiveram coragem de repetir. Parecia muito perigoso, estar ali agora. Todo o desejo de fama, de conhecimento, de descoberta se esvaiu como por encanto e deu lugar ao medo e ao terror. Todos haviam entendido. Mas preferiam que não. O chefe da expedição então tomou a decisão e falou abrindo os braços:

- Senhores, o momento é de grande responsabilidade, não podemos deixar que este vírus se espalhe e provoque o pânico em nossa sociedade. Como chefe da equipe determino que joguemos este câncer para o lugar de onde veio e nunca deveria ter saído. Sugiro ainda que lacremos o lugar para que as futuras gerações não se sintam curiosas e abram de novo esta vala.

Mas, o inesperado aconteceu, o velho sábio, que segurava a pequena arca, agora mais agarrado a ela, gritou, já reabilitado do pânico inicial.

- Nããão! Parem! Bando de covardes, abutres da humanidade e da inteligência humana, hienas sorridentes de um sistema corrupto, sem valores, sem alma, e sem dignidade! O que? Não sabem o que é dignidade? É por isso que estão todos apavorados. É por isso que vão destruir um dos maiores valores da humanidade. O último baluarte do bem, da dignidade, dos princípios. O último paredão que impedia a corrupção, desonestidade, o banditismo, a politicagem, o puxa-saquismo, a mentira, a traição, e tantos outros males, de dominarem o mundo e o coração das pessoas. Tudo que havia de bom no ser humano foi destruído e jogado num buraco escuro e profundo dentro de urnas como esta.

Os outros, aturdidos, se calavam, não tinham coragem para pronunciar uma única palavra ou esboçar uma reação, mínima que fosse.

Agora chega. Continuou o velho sábio.

Já matamos o amor, a esperança, a fé. Já destruímos o sorriso, já destruímos a pureza e a amizade e, já fizemos mal de mais. Alguma coisa tem que ser feita para salvar as pessoas destes demônios destruidores de alma, de mente e de vontade. Está em nossas mãos, este é o momento impar. Nós fomos colocados aqui, todos nós, para cumprirmos esta missão. Vamos senhores devolver a vida ao ser humano. Vamos sair daqui renovados e renovar o mundo e as pessoas. Eu sei que a tarefa será árdua, mas nós temos capacidade para isso, para plantarmos uma nova semente e cuidar para que frutifique... Nós podemos abrir as portas da escuridão e libertar este pequeno raio de luz, e assim iluminar o mundo outra vez... Calou-se. Esperou.

Todos se olharam, e num gesto só, como se tivessem ensaiado, avançaram para o sábio e o jogaram na vala escura juntamente com a arca. Rapidamente, lacraram o lugar e cada um partiu correndo e se escondeu do melhor modo que pode. E o pequeno raio de luz, agora triste e abandonado, também se perdeu na escuridão.



AUTOR: Edison Rodrigues Paulino

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