quarta-feira, 15 de setembro de 2010

PÂNICO

Neste dia ou mais precisamente, neste fim de tarde, tudo parecia dar errado. A gaveta da minha mesa caiu duas vezes, os papéis se esparramaram pelo chão do escritório, e o ventilador conspirava contra mim. Definitivamente todos eram conspiradores de carteirinha. Não deveria ter saído de casa...como se isto fosse possível.
Eu me tornei escrava do meu trabalho, e às vezes me sinto prisioneira dentro desta sala, sendo observada por todos eles, conspiradores sorrateiros, que me espreitam de dentro da lata do lixo, disfarçados no barulho do ventilador e até mesmo na ponta do meu grafite.
Parece que tudo começou quando liguei para minha vizinha, a Melissa. O serviço no escritório estava atrasado; havia um projeto para entregar e o cliente me pressionava, então tive a infeliz idéia de pedir para que ela pegasse o meu filho no colégio. Somos grandes amigas.
Tiago, meu marido, viajara a serviço. Era a primeira vez que isto acontecia, talvez essa fosse a razão do meu nervosismo.
A Melissa é a mãe do Maurício, que estuda na escolinha com o Jonas meu filho, e o marido dela o Rodolfo, trabalha na mesma empresa que eu. Eles não são da mesma turma, mas quando estão em casa são inseparáveis, ambos têm a mesma idade, cinco anos, com diferença de meses. Liguei também para a escola e falei com a diretora. Mas, coração de mãe é coração de mãe e, alguma coisa me apertava o peito e me deixava inquieta. As notícias de seqüestro de crianças pululavam em minha mente.
Tudo parecia muito seguro, mas a ansiedade me dominava e me estressava.
Era um sentimento novo, e imaginava como se sentiam as mães de filhos seqüestrados e, meu pânico aumentava mais.
Pensava que alguém pudesse ter ouvido meu telefonema e se antecipado à Melissa. Será que havia uma escuta dentro do ventilador, na lixeira? Oh! Meu telefone estava grampeado. A diretora da escola talvez tivesse se esquecido da avisar à professora e agora o Jonas estava sendo levado para longe, talvez para a Europa, o Japão...
Com este pensamento saí do escritório no final do expediente, tropecei no cesto de lixo e não caí, porque me amparei na parede.
Olhei para trás e tive a impressão que alguém me observava, meu coração acelerou mais ainda. Apertei o botão do elevador e ele se abriu imediatamente com se estivesse me esperando. O vulto que aparecera no final do corredor agora se avolumava correndo em minha direção. A porta do elevador se fechou e ele ficou para trás.
Corri para o estacionamento, sempre com o coração apertado, a imagem do meu filho, gritando e estendendo os bracinhos para mim, não saía da minha cabeça. Isto me angustiava mais ainda.
Liguei o carro e me lembrei de fazer uma oração, pedir a Deus ajuda neste momento de angústia.
Quando saí do estacionamento ainda consegui ver pelo retrovisor aquele vulto com um boné azul cobrindo parte do rosto entrando num carro vermelho. Olhei para frente, na rua o trânsito era intenso, acelerei e pensei em não me apavorar.
Ao dobrar a primeira esquina pude ver o carro vermelho saindo do estacionamento, quis correr, mas os carros a minha frente estavam lentos e meu coração se precipitou mais ainda.
― Jonas meu filho, a mamãe está indo...
Imaginava seu sofrimento, gritando mamãe o tempo todo.
Meu Deus, a Melissa o pegou no colégio e o levou para casa é claro, e agora estavam os dois brincando e pulando no sofá da sala. Como eram sapecas estes dois. Tinham que ser dois homens? Se fossem meninas talvez não fossem tão travessas.
No percurso para casa tinha que passar em frente ao colégio, mas tudo parecia deserto naquela hora e o retrovisor me mostrou aquele carro vermelho. Parecia muito claro que estava me seguindo. Será que era um dos seqüestradores? E agora que fazer?
Como a rua estava deserta dobrei a esquina tentando fugir. Em vão, quando começava dobrar à direita, outra vez visualizei aquele carro fazendo as mesmas manobras que eu.
Precisava raciocinar rápido, estava longe de casa e o percurso era cheio de curvas, entrei numa esquina e logo dobrei à esquerda, não vi mais o meu seguidor, logo adiante virei rapidamente também à esquerda e a rua era um pouco longa, mas quando entrei de novo à direita me senti aliviada, o carro vermelho não mais me seguia ou era o que parecia. Este não era o caminho normal para casa, era um pouco mais longo, só um pouco, mas eu chegaria lá. Estava dirigindo muito rápido, precisava tomar cuidado.
Meus pensamentos se voltaram para Jonas, será que ele estava bem, será que estará em casa me esperando; seu rostinho lindo não me saia da memória.
Estava perto de casa, faltavam pouco mais de 50 metros meu coração acelerava quando de súbito, saindo de uma esquina, do lado contrário eis que surge ninguém mais que o carro vermelho, freei bruscamente o carro, meu coração se precipitou, minha vista escureceu, fiquei estarrecida. Aquela cor parecia se avolumar por todas as direções. Estava perdida. De súbito pensei em meu filho. Lentamente, tudo foi aos poucos se clareando. O carro vermelho estava lá, parado em frente à casa de Melissa, ela e os dois meninos estavam parados em frente ao portão, eles brincavam como sempre.
Aquele era o gol vermelho do Rodolfo e eu sempre detestei aquele boné azul...
Minha vontade foi de atirar o celular na... meu Deus o celular...


AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO






Nenhum comentário:

Postar um comentário