terça-feira, 14 de setembro de 2010

O MENDIGO DA PRAÇA DA ALEGRIA

Eu sou o mendigo da Praça da Alegria, de alegria não tem nada. Mas, é  assim que me chamam ou é assim que as pessoas me olham. Nasci mendigo, talvez aqui nesta praça. Aqui, no meio da sujeira, no meio do lixo.  Ainda há quem se arrisque a dizer, que do lixo brotei. Não ligo.
Sou mendigo. Não sei se por força ou por falta de força. Eu sou o mendigo da Praça da Alegria, faço questão; se para nada ligo, por isso eu brigo.
Existem por aí, parecidos comigo, milhares. Parecidos, disse bem. Porque eu sou diferente. Todo o mendigo que se presa trabalha. É, parece absurdo, mas trabalha quando persegue as pessoas e vasculha os lixos, anda. Para um mendigo que se presa este é um trabalho árduo.
Mas, eu não. Não. Numa falência total de luta, no chão que me deito ali eu fico, sem ânimo; meu corpo desfalece de ócio. Quem me dera que aquela sombra o viesse cobrir ou mãos alheias o levassem para lá. Do lixo me alimento, com ele me agasalho.
Fecho os olhos e meus sonhos são somente as pessoas, que vão e que vêm. Que jogam o lixo em cima de mim, como se eu não existisse, como se eu nada fosse ou fosse mais um verme entre os vermes de toda aquela podridão.
Pessoas... mas, eu sou uma delas. Horrivelmente semelhante ao delas é o meu corpo. Este corpo ao qual me escravizei o membro superior esquerdo desconhece. Meu olho direito jamais viu a luz, e o esquerdo persegue as sombras durante o dia; empastado da remela nojento, à noite se confunde na escuridão.
Envolto na lixama da praça, barba espessa e suja, o corpo farrapo, coberto de molambos, enoja as pessoas.
Não há duvida, que tanto por força como por falta de força, sou o mendigo da Praça da Alegria.
Mergulhado assim num mar de sonolência e no odor fétido do lixo, volto a dormir...

AUTOR : EDISON RODRIGUES PAULINO

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