segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ANDANTE NOTURNO

Aqui vou,
submerso em mim,
indigente no tempo,
estendendo o coração;
mendigo da vida,
carente de amor,
levando pelos caminhos,
a esmo maltrapilho,
este corpo molambudo;
abjeto de todos.
Andante noturno,
peregrino das sombras,
ando e resvalo
a procura de luz
por veredas imundas,
coberto de escárnio.
Esmolando um sonho
repleto de amor,
assim me vou
buscando lonjuras;
retirante, levando
um delírio imbecil
num sorriso idiota
desses lábios sofridos...

AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ANDARILHO

Sondando, eu vou buscar:
No caminho a seguir,
a luz do iluminar,
os conselhos de aceitar,
as mãos de amparar.
No céu aberto,
as nuvens do precaver,
a lua do bem pensar.
E, na vaga sombra,
penumbra de entristecer,
o sol de alegrar.

Caminhando então,
um pedaço do mundo,
pra poder percorrer,
vou levando comigo.
Se alguém perguntar,
um pedaço do mundo
sempre posso mostrar.

Pequenino eu vou,
pés descalços no chão,
neste chão que é meu,
ferindo a terra,
rasgando o espaço
e o vento que sopra
meu corpo pequeno.

Pequeno,
sou carente.
Ente, sou gente.
Com Karma ou sem,
sou presente sou real.


Um olhar de ternura
no caminho que vou
suplicante eu peço.

AUTOR:EDISON RODRIGUES PAULINO


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

PARANÓIA

Quando estacionei meu carro em frente à garagem de casa e olhei para o relógio me espantei com o horário. Eram 16:15. Achei estranho. Não me lembrava porque estava ali tão cedo. Normalmente saía do escritório por volta das 18:00 horas quando não havia muito trabalho e, o mais estranho era que eu estava abarrotado de trabalho, atolado até o pescoço.
Um branco total, isso era o que tinha me acontecido. Como vim parar aqui a esta hora? Por mais que me esforçasse não me lembrava.
Como estava nesta situação, resolvi não colocar o carro na garagem, deixando-o do lado de fora mesmo, estacionado bem em frente de casa. Entrei e, tudo estava em silêncio, lembrei-me então que as crianças estavam na casa de Dona Jacira, minha sogra.
Procurei por Maura, minha esposa, mas não a encontrei, não estava também no quintal.
Estranho, cheguei cedo e minha esposa não se encontrava em casa, onde será que ela estava? Sentei-me no sofá da sala e senti alguma coisa me cutucando por baixo da almofada, passei a mão e peguei alguma coisa. Ora, era o celular dela. Ela saíra sem celular.Havia uma mensagem gravada. A pressa foi tanta que Maura esqueceu de apagar a mensagem, que ainda estava gravada. Não fazia muito tempo que saíra e a mensagem gravada dizia:
MEU BEM! TE ESPERO NO SHOPPING. 17:00 HORAS - BEIJOS
Meu Deus então é isto, minha chegada mais cedo foi providencial. Com quem ela iria se encontrar? Eu preciso ver isto; 17: 00 horas  no shopping. Porque ela está fazendo isto comigo? Nós vivemos tão bem! Eu lhe dou amor e carinho. Como é falsa. E diz que me ama. Preciso ver isto, preciso ver isto.
Oh! Meu Deus, que loucura, estou perdido, como vou viver sem ela? Mas também não quero mais saber dela. Droga porque ela foi fazer isto?  Maura você está me traindo? Está? Com quem? Quem é este safado, que lhe chama de meu bem e ainda manda beijos? Quem?
Eu preciso saber quem é. Não agüento esta ansiedade. Faltam 20 minutos para as 17:00 horas. Tive uma idéia, vou ficar de tocaia e ver com quem ela vai se encontrar, aí pego os dois de uma vez só. Será que vou ter coragem?
Preciso de um disfarce. Ainda bem que não joguei fora aquele casacão que meu tio deixou quando passou uma temporada conosco, há mais de seis anos. Vou tirar o chapéu de palha velho que usei nas últimas festas juninas e o bigodinho postiço do casamento caipira do ano retrasado. Estava perfeito, era uma mistura de Carlito e Jack o extirpador, ninguém me reconheceria.
Nossa! Faltam 15 minuto para as 17:00 horas, preciso correr, o Shopping não é longe, no caminho vou planejando como agir. Tenho que chegar devagar, não posso ser visto, apesar do meu disfarce perfeito.
Não consigo imaginar minha mulher me traindo. Tudo estava tão bem entre nós. O que será que deu nela para fazer isto? Será que eu me esqueci dela com esta correria de trabalho? Mas, ela nunca reclamou; ao contrário sempre me incentivou. Vai ver que me incentivava para ficar livre e poder me trair tranqüila. Besta! Ta vendo o que dá trabalhar demais!
Bem cheguei. Vou me esconder atrás destes carros grandes; daqui posso ver bem o movimento na entrada do Shopping. Será o cara já chegou? Quem será ele? Será um conhecido? Daqui pra frente todo mundo vai me chamar de chifrudo. Lá vai o chifrudo! Por que você fez isto Maurinha? Eu vou ficar marcado pro resto da vida. 17:05... e nada ainda. Cheguei atrasado? Não, não, olha ela lá, está olhando para o relógio, o cara está atrasado. Cuidado, se esconde ela está olhado para cá, mas é claro que não vai me reconhecer, bobagem a minha, o meu disfarce é perfeito.
Chiii, rapaz! Ela cruzou os braços, está impaciente. Olha lá, olha lá! Está batendo os pezinhos, este é um mau sinal, ela está furiosa. O cara se atrasou... coitado, não conhece a Maurinha; quando ela fica furiosa... sai de baixo.
Ela entrou. Vou esperar um pouco. Saiu de novo... olhou para o meu lado. Entrou de novo. Eu estou seguro. O que ela foi fazer lá dentro? Está demorando... será que o cara estava lá? Puxa... ela está demorando o que....ai, aiaiai...  o que é isto?
Seu idiota, seu maluco...estúpido!
O que, o que? Eu não estou entendendo nada? De onde você saiu?
Ah, não está entendendo nada, seu burro? Então você marca comigo na porta do Shopping às 17:00 horas em ponto...me deixa esperando e depois vem pra cá com esta idiotice toda. O que é que você está pensando, hein? Sua besta quadrada!
Mas... Maurinha era só uma brincadeira. Como foi que você me reconheceu? O meu disfarce era perfeito...
Eu não seu onde estou que não encho sua cara de porrada... seu louco, doente mental, seu... seu...
Esta fantasia idiota está mais manjada do que a do zorro. Você usa esta porcaria em toda a festa e em toda a brincadeira que se faz lá em casa ou na vizinhança.
Olha, eu não agüento mais, esta foi a última vez que você apronta uma destas. Você está louco, completamente louco e eu vou lhe internar num hospício. Você vai ver.
Maurinha, o que é isto... você sabe que eu a amo.
Que ama nada. Vamos embora, me dá aqui a chave do carro, eu dirijo.
Maurinha me perdoa. Maurinha eu a amo...Maurinha... você é tudo pra mim, você é  a mãe do meus filhos eu...eu...não faça isto, não deixe que eles me levem..não...não...camisa de força não Maurinha...Maurinha, não! Maurinha...Maurinha...Maurinhaaaaaaaa.



AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

PÂNICO

Neste dia ou mais precisamente, neste fim de tarde, tudo parecia dar errado. A gaveta da minha mesa caiu duas vezes, os papéis se esparramaram pelo chão do escritório, e o ventilador conspirava contra mim. Definitivamente todos eram conspiradores de carteirinha. Não deveria ter saído de casa...como se isto fosse possível.
Eu me tornei escrava do meu trabalho, e às vezes me sinto prisioneira dentro desta sala, sendo observada por todos eles, conspiradores sorrateiros, que me espreitam de dentro da lata do lixo, disfarçados no barulho do ventilador e até mesmo na ponta do meu grafite.
Parece que tudo começou quando liguei para minha vizinha, a Melissa. O serviço no escritório estava atrasado; havia um projeto para entregar e o cliente me pressionava, então tive a infeliz idéia de pedir para que ela pegasse o meu filho no colégio. Somos grandes amigas.
Tiago, meu marido, viajara a serviço. Era a primeira vez que isto acontecia, talvez essa fosse a razão do meu nervosismo.
A Melissa é a mãe do Maurício, que estuda na escolinha com o Jonas meu filho, e o marido dela o Rodolfo, trabalha na mesma empresa que eu. Eles não são da mesma turma, mas quando estão em casa são inseparáveis, ambos têm a mesma idade, cinco anos, com diferença de meses. Liguei também para a escola e falei com a diretora. Mas, coração de mãe é coração de mãe e, alguma coisa me apertava o peito e me deixava inquieta. As notícias de seqüestro de crianças pululavam em minha mente.
Tudo parecia muito seguro, mas a ansiedade me dominava e me estressava.
Era um sentimento novo, e imaginava como se sentiam as mães de filhos seqüestrados e, meu pânico aumentava mais.
Pensava que alguém pudesse ter ouvido meu telefonema e se antecipado à Melissa. Será que havia uma escuta dentro do ventilador, na lixeira? Oh! Meu telefone estava grampeado. A diretora da escola talvez tivesse se esquecido da avisar à professora e agora o Jonas estava sendo levado para longe, talvez para a Europa, o Japão...
Com este pensamento saí do escritório no final do expediente, tropecei no cesto de lixo e não caí, porque me amparei na parede.
Olhei para trás e tive a impressão que alguém me observava, meu coração acelerou mais ainda. Apertei o botão do elevador e ele se abriu imediatamente com se estivesse me esperando. O vulto que aparecera no final do corredor agora se avolumava correndo em minha direção. A porta do elevador se fechou e ele ficou para trás.
Corri para o estacionamento, sempre com o coração apertado, a imagem do meu filho, gritando e estendendo os bracinhos para mim, não saía da minha cabeça. Isto me angustiava mais ainda.
Liguei o carro e me lembrei de fazer uma oração, pedir a Deus ajuda neste momento de angústia.
Quando saí do estacionamento ainda consegui ver pelo retrovisor aquele vulto com um boné azul cobrindo parte do rosto entrando num carro vermelho. Olhei para frente, na rua o trânsito era intenso, acelerei e pensei em não me apavorar.
Ao dobrar a primeira esquina pude ver o carro vermelho saindo do estacionamento, quis correr, mas os carros a minha frente estavam lentos e meu coração se precipitou mais ainda.
― Jonas meu filho, a mamãe está indo...
Imaginava seu sofrimento, gritando mamãe o tempo todo.
Meu Deus, a Melissa o pegou no colégio e o levou para casa é claro, e agora estavam os dois brincando e pulando no sofá da sala. Como eram sapecas estes dois. Tinham que ser dois homens? Se fossem meninas talvez não fossem tão travessas.
No percurso para casa tinha que passar em frente ao colégio, mas tudo parecia deserto naquela hora e o retrovisor me mostrou aquele carro vermelho. Parecia muito claro que estava me seguindo. Será que era um dos seqüestradores? E agora que fazer?
Como a rua estava deserta dobrei a esquina tentando fugir. Em vão, quando começava dobrar à direita, outra vez visualizei aquele carro fazendo as mesmas manobras que eu.
Precisava raciocinar rápido, estava longe de casa e o percurso era cheio de curvas, entrei numa esquina e logo dobrei à esquerda, não vi mais o meu seguidor, logo adiante virei rapidamente também à esquerda e a rua era um pouco longa, mas quando entrei de novo à direita me senti aliviada, o carro vermelho não mais me seguia ou era o que parecia. Este não era o caminho normal para casa, era um pouco mais longo, só um pouco, mas eu chegaria lá. Estava dirigindo muito rápido, precisava tomar cuidado.
Meus pensamentos se voltaram para Jonas, será que ele estava bem, será que estará em casa me esperando; seu rostinho lindo não me saia da memória.
Estava perto de casa, faltavam pouco mais de 50 metros meu coração acelerava quando de súbito, saindo de uma esquina, do lado contrário eis que surge ninguém mais que o carro vermelho, freei bruscamente o carro, meu coração se precipitou, minha vista escureceu, fiquei estarrecida. Aquela cor parecia se avolumar por todas as direções. Estava perdida. De súbito pensei em meu filho. Lentamente, tudo foi aos poucos se clareando. O carro vermelho estava lá, parado em frente à casa de Melissa, ela e os dois meninos estavam parados em frente ao portão, eles brincavam como sempre.
Aquele era o gol vermelho do Rodolfo e eu sempre detestei aquele boné azul...
Minha vontade foi de atirar o celular na... meu Deus o celular...


AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO






terça-feira, 14 de setembro de 2010

O MENDIGO DA PRAÇA DA ALEGRIA

Eu sou o mendigo da Praça da Alegria, de alegria não tem nada. Mas, é  assim que me chamam ou é assim que as pessoas me olham. Nasci mendigo, talvez aqui nesta praça. Aqui, no meio da sujeira, no meio do lixo.  Ainda há quem se arrisque a dizer, que do lixo brotei. Não ligo.
Sou mendigo. Não sei se por força ou por falta de força. Eu sou o mendigo da Praça da Alegria, faço questão; se para nada ligo, por isso eu brigo.
Existem por aí, parecidos comigo, milhares. Parecidos, disse bem. Porque eu sou diferente. Todo o mendigo que se presa trabalha. É, parece absurdo, mas trabalha quando persegue as pessoas e vasculha os lixos, anda. Para um mendigo que se presa este é um trabalho árduo.
Mas, eu não. Não. Numa falência total de luta, no chão que me deito ali eu fico, sem ânimo; meu corpo desfalece de ócio. Quem me dera que aquela sombra o viesse cobrir ou mãos alheias o levassem para lá. Do lixo me alimento, com ele me agasalho.
Fecho os olhos e meus sonhos são somente as pessoas, que vão e que vêm. Que jogam o lixo em cima de mim, como se eu não existisse, como se eu nada fosse ou fosse mais um verme entre os vermes de toda aquela podridão.
Pessoas... mas, eu sou uma delas. Horrivelmente semelhante ao delas é o meu corpo. Este corpo ao qual me escravizei o membro superior esquerdo desconhece. Meu olho direito jamais viu a luz, e o esquerdo persegue as sombras durante o dia; empastado da remela nojento, à noite se confunde na escuridão.
Envolto na lixama da praça, barba espessa e suja, o corpo farrapo, coberto de molambos, enoja as pessoas.
Não há duvida, que tanto por força como por falta de força, sou o mendigo da Praça da Alegria.
Mergulhado assim num mar de sonolência e no odor fétido do lixo, volto a dormir...

AUTOR : EDISON RODRIGUES PAULINO

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PEQUENO RAIO DE LUZ

Arqueólogos do mundo inteiro debruçaram-se sobre uma descoberta incrível, a maior de todas em séculos.


Alguns arqueólogos cavavam há anos em um terreno onde pensavam que encontrariam muitos tesouros arqueológicos, fósseis raríssimos que há milhares de anos, se encontravam desaparecidos; uma civilização muito antiga teria existido por ali.

Depois de algumas toneladas de terra retiradas do local, eis que surge o primeiro achado, uma urna lacrada com algumas frases ininteligíveis devido à ação do tempo, mas com algum esforço, ainda podiam se decifrar duas palavras que dariam sentido à frase se estivesse completa: ...RESPEITO...DIGNIDADE... Uma sombra passou por todos os semblantes, como se dissessem:

-Temos que tomar cuidado para que isto não seja divulgado para todo o mundo.

Todos sabiam que aquela urna podia guardar uma preciosidade histórica. Ela estava para ser aberta, o momento era único. Eles foram chamados em segredo, estavam ali para presenciar algo de muita relevância histórica, mas também poderia ser um estopim se caísse em domínio público. Era melhor que avaliassem bem antes, para divulgar depois.

Terrível ou não aquela descoberta poderia colocá-los no patamar dos maiores arqueólogos de toda a história da humanidade.

Ao ser aberta sob os olhares atônitos de todos, a urna mostrou alguma coisa disforme, estranha, nada que se parecesse com algo conhecido, nenhum objeto, nenhuma obra de arte, nada se parecia com aquilo, não havia nada para comparar.

Os cientistas viraram e reviraram, mas nada. O que seria? Que nome tivera? Ou que nome dariam?

No afã de desvendar o grande mistério, o chefe da expedição chamou mais para perto o arqueólogo mais famoso e mais antigo.

Um pouco vacilante, ele se chegou mais para perto, e com as mãos tremulas, pegou a urna, repetiu todos os passos que já haviam sido dados e, nada.

Revirou a memória e, de súbito recuando com o semblante amedrontado, um tanto apavorado, escorou-se nos braços dos companheiros para não cair. Tentou balbuciar uma palavra, mas o medo tomou conta do seu ser. Não, não era uma bomba que estivesse para ser detonada a qualquer momento, não, era algo mais terrível. Aterrorizado como estava, tudo o que conseguiu, lá no fundo da garganta, quase como um gemido, foi balbuciar alguma coisa como:

- ÉÉÉ...Parou, olhou em volta, como que não quisesse ser ouvido e continuou...TIII..CAAA...

O som abafado e um tanto rouco só pode ser entendido porque todos resolveram chegar os ouvidos bem próximos da sua boca. Mesmo assim, eles não tiveram coragem de repetir. Parecia muito perigoso, estar ali agora. Todo o desejo de fama, de conhecimento, de descoberta se esvaiu como por encanto e deu lugar ao medo e ao terror. Todos haviam entendido. Mas preferiam que não. O chefe da expedição então tomou a decisão e falou abrindo os braços:

- Senhores, o momento é de grande responsabilidade, não podemos deixar que este vírus se espalhe e provoque o pânico em nossa sociedade. Como chefe da equipe determino que joguemos este câncer para o lugar de onde veio e nunca deveria ter saído. Sugiro ainda que lacremos o lugar para que as futuras gerações não se sintam curiosas e abram de novo esta vala.

Mas, o inesperado aconteceu, o velho sábio, que segurava a pequena arca, agora mais agarrado a ela, gritou, já reabilitado do pânico inicial.

- Nããão! Parem! Bando de covardes, abutres da humanidade e da inteligência humana, hienas sorridentes de um sistema corrupto, sem valores, sem alma, e sem dignidade! O que? Não sabem o que é dignidade? É por isso que estão todos apavorados. É por isso que vão destruir um dos maiores valores da humanidade. O último baluarte do bem, da dignidade, dos princípios. O último paredão que impedia a corrupção, desonestidade, o banditismo, a politicagem, o puxa-saquismo, a mentira, a traição, e tantos outros males, de dominarem o mundo e o coração das pessoas. Tudo que havia de bom no ser humano foi destruído e jogado num buraco escuro e profundo dentro de urnas como esta.

Os outros, aturdidos, se calavam, não tinham coragem para pronunciar uma única palavra ou esboçar uma reação, mínima que fosse.

Agora chega. Continuou o velho sábio.

Já matamos o amor, a esperança, a fé. Já destruímos o sorriso, já destruímos a pureza e a amizade e, já fizemos mal de mais. Alguma coisa tem que ser feita para salvar as pessoas destes demônios destruidores de alma, de mente e de vontade. Está em nossas mãos, este é o momento impar. Nós fomos colocados aqui, todos nós, para cumprirmos esta missão. Vamos senhores devolver a vida ao ser humano. Vamos sair daqui renovados e renovar o mundo e as pessoas. Eu sei que a tarefa será árdua, mas nós temos capacidade para isso, para plantarmos uma nova semente e cuidar para que frutifique... Nós podemos abrir as portas da escuridão e libertar este pequeno raio de luz, e assim iluminar o mundo outra vez... Calou-se. Esperou.

Todos se olharam, e num gesto só, como se tivessem ensaiado, avançaram para o sábio e o jogaram na vala escura juntamente com a arca. Rapidamente, lacraram o lugar e cada um partiu correndo e se escondeu do melhor modo que pode. E o pequeno raio de luz, agora triste e abandonado, também se perdeu na escuridão.



AUTOR: Edison Rodrigues Paulino

sábado, 11 de setembro de 2010

QUANDO O SEU DIA CHEGAR ELA COM CERTEZA VAI SABER.

Logo cedo, me vi descendo a pé a rampa de acesso ao CEFET. Estranho, porque normalmente, todos os dias chegava de carro.


Olhei o pátio do estacionamento e ainda não havia nenhum carro estacionado ali. O guarda estava no seu posto esperando para soltar a corrente assim que chegasse o primeiro veículo. Na rua, o movimento era normal para aquela hora da manhã. Era cedo, mas o sol já estava alto e parecia iluminar com mais intensidade nessa manhã.

Estranhamente, pois nunca fizera isto, olhei para a bandeira e vi que ela estava hasteada a meio- pau. Nunca tinha lhe dado tanta atenção antes. Fiquei curioso, alguém falecera. As mortes no CEFET estão ficando frequentes atualmente. Quem teria sido desta vez?

A bandeira hasteada a meio-pau é às vezes o único aviso, e a notícia fica por conta dela, quem a vê sabe, quem não, ignora.

Há alguns anos atrás encontrei nos corredores do CEFET, a filha de um professor, meu vizinho, e, quando perguntei por ele, ela me respondeu com tristeza que ele falecera há uma semana.

― O senhor não olhou a bandeira hasteada a meio- pau?

Eu não precisava ter sido avisado, era só olhar a bandeira. Não. Não havia olhado, nunca me lembrava de olhá-la.

A bandeira tremulava apesar de eu não estar sentindo o vento. Alguns professores e funcionários começaram a chegar, uns andando, outros de carro, mas assim que chegavam ao pátio do estacionamento a primeira coisa que faziam era olhar para a bandeira, depois se reuniam, faziam comentários e entravam. Os alunos ao chegarem também a notaram, e em pequenos grupos comentavam o acontecido.

Alguém morrera, mas quem? Apesar de todo o movimento não consegui escutar o nome do falecido.

Aos poucos todos foram chegando, funcionários e alunos e o ritual era o mesmo,

olhavam para ela , faziam comentários e entravam.

Engraçado. Por que todos conspiravam contra mim? Por que todos sabiam e somente eu não?

Em dado momento me vi sozinho de novo no estacionamento, não conseguia entrar ou não deveria entrar. Fiquei ali, olhava para ela, lá em cima a meio- pau e para a porta de entrada, e aquela flâmula tremulante parecia me sugar.

Senti-me sendo afastado lentamente da entrada e flutuando no ar.

Todos sabiam quem morrera, a bandeira a meio- pau lhes tinha avisado.



Autor: Edison Rodrigues Paulino -28de maio de 1999.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

UM ANJO EM MINHA VIDA



Capítulo 1- Eu o Bilú e tudo em volta



Como todos os dias, eu me sentei no degrau de cima da escada que dava acesso ao barraco onde morava com meu pai e com Bilú, meu cachorro de orelha caída.

Engraçado o Bilú. Não me perguntem qual sua raça, porque eu não sei. Só sei que tinha pelo liso e curto, era branco com uma grande mancha preta nas costas e outra pequena na orelha esquerda. Dá para imaginar como ele era, com mais ou menos uns trinta centímetros de altura. Ah! Tinha também uma mancha preta, bem no começo do rabo, uma mancha pequena.

Sempre nos sentávamos ali no começo da noite para olhar o céu e contar as estrelas. Era uma tarefa impossível, pois o céu ficava pintadinho de estrelas, parecendo uma peneira. Não é como o céu da cidade onde elas quase não aparecem. Ele, às vezes me olhava, outras vezes, fechava os olhos como se estivesse sonhando com as aventuras do dia.

A escada de casa tinha três degraus que davam para a rua, que passava bem em frente.

Mas, atrás do barraco tinha um quintalzão, com um curral e duas vacas de leite, a Preta e a Mimosa. Tinha também um bezerro, o Malhado, todo preto com umas manchas brancas espalhadas até no olho. Ou seria todo branco com umas manchonas pretas no corpo todo?

Bem, só sei que ele era engraçado, e o Bilú gostava muito dele.

Às vezes eu pegava os dois lá no fundo do curral na maior prosa. Não sei o que eles tanto falavam, mas era conversa demais. Um latia daqui e o outro mugia dali, um balançava a cabeça e o outro o rabinho, às vezes confirmando e outras vezes não. Que era engraçado, lá isso era.

Meu pai fizera a casa bem mais alta que a rua, com medo de enchente, pois, quando chovia muito, passava uma grande enxurrada pela rua, trazendo um montão de coisas. Era tronco de árvore, osso de gente, cachorro morto, cabrito e até bezerro eu via passando em frente de casa.

A uns quinhentos metros mais ou menos tem uma lagoa enorme, tão grande e funda que a gente atravessava de canoa.

A lagoa é cercada por uma pequena floresta, onde diziam tinha até onça, mas onça mesmo, daquelas grandonas, que tem uns dentões de dar medo.

Quando ela rugia lá na mata de noitinha, meu pai saia de espingarda na mão e lanterna pendurada. Dava uma volta ao redor da casa, que era para proteger, contar os bichos do quintal, e verificar se a onça não levara nenhum, depois voltava e dormia, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

O cachorro corria e se enfiava embaixo das cobertas junto comigo.

Depois que tudo ficava calmo, ele ia para frente da porta e cheio de coragem latia até cansar, desafiando a bichana.

Papai estava sempre preparado esperando pela onça, mas ela não vinha, e isto nos deixava aliviados, parecia que ela nunca teria coragem de atravessar a lagoa.

Existia, também por lá, a estória de um tamanduá que abraçava as pessoas e não largava mais. Tinha umas unhas enormes também e só comia formigas. Não sei porque as pessoas tinham tanto medo dele.

Nas árvores que ficam em frente de casa, morava um casal de preguiças.

Ah, como eram preguiçosos aqueles dois, levavam horas para descer e outras tantas horas para subir. Às vezes eu adormecia debaixo da árvore esperando por eles, ou então perdia a paciência e ia brincar noutro lugar.

Foi lá, nesta lagoa, que aprendi a nadar, junto com o Bilú. Foi lá também que conheci a Nita, filha do dono do cavalo alazão. É porque eu não sabia o que ele fazia e nem o seu nome, então sempre foi o dono do cavalo alazão, ou o pai da Nita.

A mãe dela nunca ia para a roça, como ela mesma chamava o lugar onde eu morava com meu pai.

Quase todos os moradores dali, trabalhavam na fazenda do pai da Nita, menos o seu Osório, ou o Zório, como era conhecido meu pai.

Ele era muito independente, tinha sua própria roça, onde plantava feijão, milho e algumas espécies de verdura, que vendia na feira, além do leite das vacas, e os ovos das galinhas, que eram o principal alimento de casa. E por falar em galinha, eu me esqueci de contar da Martinha. A martinha era uma galinha carijó que não saia da cozinha de casa, e não adiantava nada brigar com ela ou espantá-la, pois, ela corria e se escondia debaixo da mesa, ou do armário e até mesmo no meio das panelas que ficavam debaixo da pia. Ela só sabia botar ovos ali, dentro da cozinha, em cima da mesa, ou mesmo dentro de alguma panela.

Lá, dentro do fogão era o lugar preferido para ela dormir. Engraçado a Martinha, nunca fora ao quintal. Ela não comia minhocas ou restos de alimentos jogados lá, nem o milho, que era preferido de todas, e só comia se fosse colocado dentro da cozinha, em qualquer lugar. Meu pai disse que era a alma da vovó Martinha, que também não saia da cozinha quando viva e agora voltara em forma de galinha. Por isso ninguém mexia com ela. Era só uma maneira divertida de explicar o caso da Martinha mas, tinha gente que acreditava. Eu mesmo acreditei durante muito tempo.

Nós vivíamos bem, sem luxo é claro. Eu ajudava nos serviços, dava comida aos animais e à tardinha, antes do sol se por, quando os bichos iam se chegando para dentro do curral e as galinhas para o galinheiro, contava tudo de novo para ver se não faltava nenhum. Ai sim, me sentava com o Bilú.

Os pais na Nita pouco paravam por ali. A fazenda vivia nas mãos dos empregados. Estavam sempre na cidade e ela quando vinha ao vilarejo ia me olhar nadando na lagoa, mas era para dar voltas de barco.





Capítulo 2 – A Princesa Nita e o Capitão Jaque



Foi assim que tudo começou, ela apareceu de repente, ficou ali me olhando com aqueles lindos olhos esverdeados, um grande sorriso nos lábios e eu adivinhei o que ela queria. Daí em diante eu a levava para lá e para cá, sempre alegre, como se fosse o dono da lagoa, olhando aquela menina linda sorrindo bem na minha frente como uma princesinha. Eram viagens fantásticas aquelas.

O Bilú ia também deitadinho bem no meio do barco.

Imaginava meu barquinho como se fosse um grande navio pirata e a lagoa um mar tenebroso por onde somente eu sabia navegar. Nita era a princesa que eu salvara dos bandidos. Os peixinhos eram os monstros horríveis que assolavam os sete mares, juntamente que com os terríveis piratas, que eram comandados por um enorme pirata de perna de pau e espada torta sempre ameaçando roubar minha princesa.

E, eu me safava tranquilo velejando meu lindo navio de guerra de volta à praia, onde nosso cavalo alazão nos esperava, com suas crinas enormes e esvoaçantes.

Algumas vezes, colocava uma espada de madeira na cintura, um chapéu de palha, com uma grande pena enfiada numa das abas, fazia um tapa olho para mim e outro para o Bilú, levava meu barquinho para o meio da lagoa e ficava ali com ar ameaçador, de espada em punho, mão na cintura esperando que algum inimigo aparecesse. E aparecia, era meu pai, que gritava da outra margem.

- Seu moleque, sai logo daí! Você não está vendo que isto é perigoso?

Ele não gostava destas minhas aventuras. Achava a lagoa muito perigosa e temia pela minha segurança como pai zeloso que sempre foi.

Meu pai nunca me deixava atravessar a lagoa de barco sozinho, era uma briga quando eu fazia isso escondido e ele ficava sabendo. Mas quando a Nita pedia ele deixava com um sorriso nos lábios, coisa rara nele. Ela cativava a todos com seu jeitinho misto de princesa-fada-anjo.

Muitas vezes, amparado por essa presença encantadora, atravessava a lagoa e cheio de um espírito de bravura, avançava pela mata adentro, a procura de algum animal feroz.

Pensava na onça, no seu rugido feroz, e no tamanduá, sabia que eles podiam estar por perto, e que era muito perigoso o que estávamos fazendo. Sentia um pouco de medo. Tinha medo por ela, não queria que nada lhe acontecesse de mal. Eu era o seu protetor, em mim ela confiava e eu nela. Na verdade era o contrário.

Lá, dentro da mata, tudo parecia nos observar, os animais, as plantas, todos queriam estar perto dela, ou ao menos vê-la passar. E, a todos ela acenava, para todos tinha um sorriso, um oi, um olá. De todos era o encanto, das flores, que cheirava, das borboletas azuis, amarelas e coloridas que brincavam a sua volta, do canário da terra e do pintassilgo de peito amarelo que saltitavam e cantavam de galho em galho, junto com outros pequenos animais.

A coruja observava assustada, com aquela carona enorme e não entendia tamanha algazarra num lugar antes tão quieto.

- Ora...ora. Estes meninos vieram quebrar o meu sossego. Pensava com toda a sua corujice.

Em dado momento nos olhávamos como cúmplices de uma molecagem e ao sinal dela, pelo brilho maroto dos seus olhos, voltávamos os dois, não como chegamos, mas em uma correria desenfreada e calada que só parava dentro do barco. Se alguém nos observasse pensaria que estávamos sendo perseguidos por um animal muito feroz. Mas, que nada, era só brincadeira. Ela pulava para dentro do barco e eu o empurrava para a água, isto tudo muito rápido. É claro que para isso contávamos com a ferocidade do Bilu. Ele nos acompanhava nestas aventuras e era sempre o primeiro a chegar. Ficava na retaguarda serpenteando em volta latindo para dentro da floresta. Como se houvesse mesmo algum animal nos perseguindo, ele, já no barco, latia ferozmente para um inimigo ameaçador que nos espreitava de longe.

Num dia desses, que nos embrenhávamos mata adentro eu sempre tremendo de medo que alguma coisa acontecesse com ela, distraído olhando os macacos e os esquilos fazendo malabarismos entre as copas das árvores, me afastei um pouco dela; e o Bilú comigo sempre correndo alvoroçado na frente. Ao me dar conta de que estava longe dela, voltei correndo e a avistei abaixada brincando com um animal da floresta. Pensei que fosse um pequeno esquilo, mas tal não foi o meu espanto quando percebi que o animal era uma feroz jaguatirica. Neste momento perdi o fôlego de tão assustado que fiquei. Balbuciei alguma coisa como:

- Nita...Nita...cuidado. Falei tão baixo, tanto para não assustar o gato que poderia machucá-la, como para que ela também não se alarmasse que nem ela me escutou e nem o gato. Foi melhor assim. Aos poucos fui me acalmando porque percebi que havia alguma coisa boa naquela nova amizade. A Nita passava a mãozinha nos pelos do animal e este quietinho se deixava afagar. De súbito, num pulo, ele desapareceu por entre as árvores. Foi a minha presença que o afugentou.

- Jaque. Você viu? Que gatinho lindo, não é. Como será que ele vive sozinho aqui no meio desse mato? Puxa! Eu ia colocá-lo no meu colo, mas ele fugiu, foi embora. Será que ele volta?

- É... eu acho que sim. Qualquer hora destas ele volta. Respondi-lhe





Capítulo 3 – A onça perto de casa



Num dia, quando estava perto da hora de Nita chegar, eu e meu pai estávamos arrumando as coisas dentro de casa, pois acabávamos de almoçar, escutamos os latidos desesperados do Bilú arranhando a porta da frente. Quando meu pai abriu a porta ele correu em direção daquela enorme árvore que ficava bem no caminho, latindo com muita força. De vez em quando, voltava para perto de nós e se virava para a árvore, querendo nos mostrar que havia alguma por entre os galhos escondida no meio das folhas.

- Jaque, vai ver o que é. Deve ser algum macaco ou algum esquilinho pulando de galho em galho. Vai lá e vê se faz este cachorro parar de latir tanto, ele está assustando os bichos no quintal. Resmungou papai.

Quando ele entrou, eu resolvi descer os degraus da escada e ir para a rua, para olhar mais de perto mas, alguma coisa estranha me fez parar. Observei bem e então voltei, aquele bicho em cima da árvore não parecia com um macaco ou um esquilo, era muito grande e tinha manchas pelo corpo que mais parecia uma jaguatirica mas muito maior. Assustado chamei:

- Corre pai, corre, vem olhar o bicho, vem. Ele é muito grande. Nunca vi um bicho tão grande assim. Pai...pai... será que não é uma onça?

Ele deu um pulo tão grande da cadeira que ela rolou e só parou quando bateu na parede do outro lado da sala. E quando apareceu na porta foi logo gritando:

- Ë ela... é ela... a onça! Dizendo isto correu para dentro de casa e voltou com a espingarda em punho. Apontou para a árvore e disparou. O estampido soou por todo o vale e quase no mesmo instante ouviu-se um urro de dor. Os bichos no quintal se assustaram tanto que corriam alvoroçados de um lado para o outro com as galinhas cacarejando desesperadas. A onçona caiu do galho onde estava e se estatelou no chão, onde ficou por algum tempo imóvel.

Todos pensávamos que ela estava morta. Ficamos ali olhando para ela esperando e, quando meu pai já descia as escadas em sua direção, de súbito, ela se levantou e ainda cambaleante correu em direção à lagoa.

Nós vimos quando ela nadando com dificuldade chegou até a floresta, sumindo de vez.

Estávamos assim distraídos quando Nita surgiu, montada em seu alazão e assustada foi logo perguntando com aquela sua vozinha meiga.

- Seu Zório, que foi isto? Jaque, me diz o que aconteceu, que tiro foi este?

Eu escutei o estrondo quando estava saindo da fazenda. Até o alazão parou assustado. Me conta o que foi?

Eu já ia dizendo, quando papai falou na frente:

- Não foi nada filha, eu só estava praticando um pouco, para esta velha arma não ficar enferrujada.

Neste dia tive certeza da existência da onça, e jurei nunca mais entrar na floresta, mesmo com os pedidos insistentes da minha amiguinha que ainda pensava que a onçona era só invenção do povo.

Mas, na verdade tudo ali era só tranqüilidade e, essa tranqüilidade, só foi mudada neste dia quando a onçona apareceu de carne e osso e um montão de dentes afiados, bem pertinho de nossa casa.

Se o Bilú não a visse, não sei o que teria acontecido. Deste dia em diante nunca mais ouvimos seus rugidos.

Depois deste episódio, nós dois, mais o Bilú é claro, sempre íamos junto à mata desafiar a onça. Eu de espada em punho, a Nita atrás de mim e o Bilú lá dentro do barco, feroz como sempre, assustado, procurando não demonstrar.

Era maravilhosa nossa vida naquele lugarejo. Como era maravilhosa a magia com que minha amiguinha atraía a todos, pessoas e animais e principalmente a mim.

Nita, sem dúvidas, era a rainha de todos.

E, foi como uma rainha das amazonas que ela apareceu montada em seu alazão num dia calmo e ensolarado em que eu e o Bilú tirávamos um cochilo debaixo da grande árvore. Ela nos encontrou sonolentos e foi difícil nos convencer que não estávamos sonhando.

Eu me levantei apesar de sonolento mas, o Bilú não quis nem conversa, continuou dormindo. Ele parecia sonhar. E um sonho muito gostoso, tão gostoso que resolvemos sair de fininho para não acordá-lo. Já, bem afastados Nita disse para o que vinha.

- Jaque, eu tive uma idéia...trouxe até a espingarda. Ora! É de chumbinho...eu não quero matar a onçona....só assustar um pouquinho e quem sabe ela não fica nossa amiga, heim?

Tremi da cabeça aos pés. Tentei tirar a idéia da sua cabeça. Menti que estava indisposto, a comida tinha me feito mal, mas ela não desistiu enquanto eu não aceitei participar da aventura.

Foi então que ela pulou no meu pescoço.

- Oba! Legal, sabia que você concordaria. Olha eu já trouxe tudo, a comida para nós dois e para o Bilú, e um pouquinho para distribuir entre os peixinhos e os animais da floresta que encontrarmos no caminho.

Enquanto descíamos para a lagoa, olhava para trás e não via nem sinal do meu cachorrinho. Apesar de saber que ele fazia só barulho, eu me sentia um pouco mais seguro com ele.

O Bilú era esperto e pressentia o perigo de longe talvez por isso tenha se escondido para não participar da aventura. Mas, qual não foi nosso espanto quando chagamos junto ao barco e ele já estava lá dentro todo saltitante e abanando o rabinho.

Os remos pareciam pesar cada um pelo menos uns 50 quilos. Só sei que a travessia que antes era uma aventura de brincadeira, agora se tornara angustiante. Levei o dobro do tempo para atravessar a lagoa.

Nita nem percebeu o meu desespero, ela estava entretida como sempre a brincar com os peixinhos que vinham comer na sua mão e pulavam o tempo todo em volta do barco.

Ao chegarmos `a margem oposta, ela e o Bilú desceram animados. Ela tratou de tirar as coisas para que o barco ficasse mais leve para que eu pudesse puxá-lo para fora da água.

Quando já estávamos dentro da mata me lembrei de examinar a espingarda de chumbo que ela trouxera e ao perguntar-lhe sobre os chumbinhos e pólvora ela me respondeu alegremente...

- Ah, não, esta arma é só para lhe dar mais confiança, ela nunca disparou um chumbinho que eu me lembre.

Parei por um instante assustado. Íamos fazer uma caçada a uma onça pintada, feroz e malvada, e não tínhamos nada para nos proteger a não ser uma espingarda sem munição. Mas, o pior é que a minha amiguinha não estava nem um pouco preocupada e, já ia longe cantarolando alegremente com os pássaros e borboletas da floresta.

Ao chegarmos a uma pequena clareira, ela parou e decidiu.

- Jaque, é aqui que vamos lanchar. Na sacola tem uma toalha, você pode abri-la bem aqui neste lugar. Olha...eu já vou arrumar os lanches que preparei em casa...só tem coisa gostosa. Pão caseiro, queijo fresco, huumm...doce de abóbora e...adivinha ... o seu favorito...doce de banana. Tem goiaba e jabuticaba. Não deu pra trazer muita coisa... a sacola estava pesada.

- Isto não parece piquenique, parece mais um banquete e, olha... eu não sei se vou comer, estou mais preocupado com a onça do que com vontade de comer. Respondi-lhe

- Olha aqui seu medroso, alguma vez você viu esta onçona? Alguém já disse que viu? Não né? Então senta aí e come... e para de tremer seu bobo. Eu e o Bilú não estamos com nem um pinguinho de medo. Retrucou sorridente, com aquele sorriso protetor que desarmava qualquer ânimo contrário ao dela.

Aos poucos fui esquecendo o medo e de repente já estava brincando e sorrindo como se estivesse no quintal de casa correndo atrás do Bilú sob as vistas espantadas de Preta e Mimosa e da alegria saltitante do bezerro Malhado. Estávamos rodeados de borboletas coloridas, pássaros das mais variadas espécies que cantavam alegremente em nossa volta. Muitos animaizinhos da floresta também vieram nos ver e beliscar as guloseimas que Nita trouxera para todos.



Capítulo 4- Nita e sua amiga Onça



Já havia um bom tempo que estávamos ali sossegados protegidos pela sombra das grandes árvores e nem percebemos que tínhamos companhia, um pouco distante, mas estava nos observando quieta como se também quisesse participar das brincadeiras e comer dos quitutes que trouxéramos. Era ela. A onçona. Ela estivera inquieta em cima de um barranco durante algum tempo às vezes deitada com a cabeça para cima nos observando, outras vezes andando de um lado para o outro até que decidiu e desceu e, mesmo em baixo não se aproximou. Ficou por ali durante alguns demorados minutos nos olhando. Várias vezes tomou a decisão de voltar, de subir o barranco e talvez desaparecer na imensidão da mata, mas não, ficou. Devagar veio se chegando, não como se aproximasse de uma presa, mas curiosa.

Parecendo não querer perturbar, parou a uma distância razoável, talvez pensando que não seria nem percebida.

O Bilú foi quem primeiro a avistou. Quando percebi seu jeito petrificado e olhar atônito desconfiei de algum perigo. Foi ai que eu também a vi. De súbito, me assustei, mas como ela estava muito quieta, pensei.

- Acho que está na hora de irmos embora. Vou convidar a Nita, vamos ver se ela aceita.

Também com o dedo na boca pedi para o cachorro ficar quieto para não assustar a menina.

Decidi que sairíamos se mansinho sem que ela soubesse o motivo. Ela aceitou o meu convite, pois, também achava que estava ficando tarde apesar de lastimar ter que ir embora e deixar seus novos amiguinhos.

Aliviado comecei a recolher as coisas que estavam sobre a esteira. Distraído com toda aquela guloseima que trouxéramos e um tanto apressado tirei os olhos por alguns instantes da onçona; ali agachado e um tanto atrapalhado, colocava tudo na sacola e também afastava o Bilú que insistia em me atrapalhar mas que na verdade queria me dizer alguma coisa que eu só entendi quando procurei minha amiguinha e não a achei. Meu espanto foi tão grande que larguei tudo e caí sentado na grama. O cachorro não parava de rodar em minha volta e eu nem tremia de tão petrificado que estava.

Lá estava ela com as mãozinhas delicadas acariciando a cabeça da onça, que por incrível que pareça estava calma e dócil como um gatinho. Então Nita gritou:

- Hei, Jaque... vem conhecer minha nova amiguinha. Ela não é grande e bonita?

Mas a fera não me esperou e de súbito, virando-se rapidamente saiu em disparada derrubando a menina e desaparecendo por entre os arbustos.

- Ah! Que pena...ela foi embora... eu acho que ela ficou com medo do Bilú..não foi?

Enquanto ela falava, eu corri para ajudá-la a levantar-se. Rapidamente arrumamos as coisas, colocamos tudo na sacola e quando nos preparávamos para irmos embora escutamos o urro assustador e ao nos viramos, lá estava ela em cima do morro nos observando, agora deitada, como se já estivesse com saudades da menina.

Remando de volta me sentia aliviado por tudo ter corrido bem. Minha amiguinha estava feliz da vida por mais esta aventura. O Bilú quieto também parecia preocupado e como eu, também estava aliviado por estarmos voltando para casa sãos e salvos.

O tempo foi passando e este episódio caiu logo no esquecimento, tanto que já pensava em convidar a minha amiguinha para um novo passeio pela floresta, quando de novo parecendo ler meus pensamentos lá vem ela, toda feliz, com sua bolsinha a tiracolo, gritando muito alegremente.

-Oi, Jaque, vim fazer uma visita de surpresa.

Eu só consegui falar:

-Que legal...ela me pegou pela mão e foi logo me arrastando em direção à lagoa. O barquinho estava lá encostado desde a nossa última aventura. Estava amarrado à um arbusto que ficava próximo.

Com facilidade empurrei-o para dentro da lagoa. Ela rapidamente pulou para o barco juntamente com o Bilú. Quando ele já estava totalmente dentro d’água, aí então eu também entrei.

À medida que nos aproximávamos do meio da lagoa, percebi que o barquinho estava se enchendo de água. Foi somente neste momento que percebi que ele estava furado. O tempo que passara sem uso fez com que a madeira do casco apodrecesse. O furo foi com certeza feito com nossos pés ao pisarmos nas taboas podres.

Sem dizer nada para não alarmá-la, imediatamente comecei a remar de volta. Foi aí que Nita, esperta, percebeu o que estava acontecendo. Mas, em vez de ficar alarmada, começou a bater palmas vendo a água molhado seus pés.

Eu não queria que ela se molhasse apesar de saber nadar. Era meu instinto protetor que falava mais alto, que meu instinto brincalhão.

Todo meu esforço para chegar à margem antes do barco afundar foi em vão. Ele afundou a poucos metros da margem. O que não evitou que todos dessem um bom mergulho nas águas frias da lagoa. O Bilú foi o primeiro a sair espalhando água por todo lado. Eu e Nita saímos juntos. Ela estava tremendo de tanto frio, pois estava toda molhada, da cabeça aos pés. Corremos para dentro de casa. Lá recebemos uma tremenda broca de meu pai, que correu para providenciar uma toalha para que Nita se enxugasse. Depois pegou umas roupas minhas que estavam passadas e guardadas. Fez com que ela as vestisse.

Meu pai estava muito apreensivo e preocupado com ela, tanto que resolveu levá-la pessoalmente à sua casa para ter certeza de que chegaria bem.

Eu também fiquei preocupado, mas ela não estava nem aí com a nossa preocupação, seu rosto era só felicidade com mais essa aventura.

Mas, por causa dessa travessura ela ficara de cama com uma febre muita alta que não passava nunca.

Eu fiquei durante muito tempo com um grande sentimento de culpa; achava mesmo que fora culpado pela doença da minha amiguinha. Fui visitá-la várias vezes. Ela me recebia muito alegremente, nós jogávamos dominó e lanchávamos antes de eu voltar para casa, não antes de prometer voltar no outro dia.



Capítulo 5 – Nita fica doente



Num dia destes, vi o médico e os pais da Nita conversando muito reservadamente na sala de visitas, ele os aconselhava a levarem-na para a capital onde poderia se consultar com especialistas e fazer exames. Ele achava que o caso requeria tratamento imediato. Ela partiu para a cidade no dia seguinte. Nós nos despedimos e, ela com um sorriso nos lábios disse:

-Jaque, arrume o barquinho, pois, quando eu voltar, quero passear de barco no lago. Você vai ver, vai ser muito divertido, tchau.

Eu não tive mais notícias dela. Mas fiz exatamente como ela me pedira. Durante os dias seguintes me ocupei quase que exclusivamente em arrumar o barco para esperá-la sem nenhum defeito. Ele ficou novinho em folha. Ainda dei uma volta pela lagoa para testar se o meu serviço tinha sido bem feito e o barco não traria nenhum perigo para minha amiguinha quando ela voltasse

Segundo o médico, se as suas suspeitas se confirmassem, e ele esperava que não, aquele passeio de barco nada teve a ver com a sua doença. Eu não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas estava mais aliviado e, por isso, fiz o trabalho com mais rapidez, porque esperava que ela voltasse logo.

- -

Entretanto, este não era o dia nem a hora de costume do cavalo alazão aparecer por aqui, mas ele veio chegando e eu e o Bilú ficamos ali boquiabertos esperando-o.

Então, ele parou batendo as patas no chão bem em frente aos degraus onde nós estávamos sentados, eu e o Bilú é claro.

Fiquei assustado, olhei para cima e não havia ninguém montado nele.

Pensei, com o coração aflito, será que a Nita caiu no caminho e o cavalo continuou sozinho?

Mas ela era uma excelente amazonas e o cavalo era muito dócil. Os dois sempre se deram muito bem. O que teria acontecido?

Só que ele nem me deixou pensar direito, abaixou a cabeça bem na minha direção, aí então eu vi pendurada em seu pescoço, uma pequena bolsa de pano azul, com um grande nome bordado em vermelho “NITA”.

Parecia que ele queria que eu pegasse ou abrisse a bolsa. Foi o que fiz, dentro havia um bilhete que dizia:

“Querido Jaque, (Jaque sou eu), há dias que estou muito doente, meu pai me internou neste hospital, e sei que daqui não vou sair com vida, por isso estou te escrevendo. Já escutei o médico falando para meus pais que eu tinha pouco tempo de vida.

Jaque, não quero que chores, para onde vou sei que serei muito feliz. Tão feliz quanto era quando corríamos pela floresta à caça da onçona e estarei sempre velando por ti.

Quando meu cavalo alazão te entregar este bilhete, eu já terei ido para o céu.

Tu sempre poderás me ver quando olhares as estrelas, eu estarei no meio delas te olhando.

“Não chores, sorria, tu terás mais uma estrelinha para contar e quando puder virei passear de barco contigo”.

Assinado,

Nita

Mais um anjo que vai brilhar no firmamento, na companhia de Jesus. Meditei comigo mesmo.

Uma lágrima rolou dos meus olhos, quis chorar, então olhei para o céu e vi aquele amontoado de estrelas e pensei, em qual delas Nita estará? Será mesmo que ela se foi? Ela se transformou mesmo em uma estrela?



Capítulo 6 – Um Anjo veio me visitar



Foi então que observei que no meio de tantas estrelas uma parecia balançar querendo se soltar.

Era uma estrela como as outras, com a diferença de que não parava no lugar.

Parecia que estava brincando, até que pulou e veio descendo, sempre aumentando de tamanho e de brilho.

Minha nossa, será que ela vai cair aqui bem em cima de mim?

Será a Nita que já virou anjo e veio me ver? Pensei assustado

Mas, aquela luz veio descendo com um brilho tão intenso que ofuscou meus olhos e ficou quase do tamanho de uma bola de futebol, daquelas que o Aparício trazia para a gente jogar quando ele vinha da cidade, isso lá uma vez ao ano. Quando a bola furava a gente jogava mesmo era com bola de meia, cheia de papel, pano e tudo que fosse macio e pudesse aumentar o tamanho da bola, depois colocávamos tudo dentro de uma meia e fechávamos bem. E ai, era só jogar.

Aquela bola luminosa desceu e parou bem em cima de casa, pouco mais alto que as árvores, fazendo brilhar tudo em volta e assustando as vacas no curral e as galinhas que cacarejavam sem parar.

O Bilú sumiu, acho que se escondeu em baixo do fogão. Só o alazão não se assustou e eu é claro. O seu pelo cor de canela lhe dava um aspecto de estátua bronzeada, no meio de todo aquele brilho estonteante.

Fiquei ali de boca aberta sem poder me mexer, já com os olhos acostumados à claridade, olhando aquela esfera luminosa no céu parecendo falar comigo e eu sem entender, até que lentamente ela foi se afastando e me levando consigo. De repente, me vi junto à lagoa.

Quando me recuperei do susto, vi que ela estava dentro do barco.

A lagoa, toda iluminada refletia aquela luz maravilhosa por todos os lados, para dentro da floresta e das poucas casas que haviam por ali. Tudo estava tão brilhante e maravilhoso que parecia um dia.

Aí sim entendi. Era a Nita, um anjo de luz e de candura, como sempre fora, que viera me ver.

Foi então que uma felicidade imensa invadiu todo o meu ser, tomou conta da minha alma. Foi como se ela tivesse me tomado pelas mãos e me puxado para dentro do barco.

Assim, com toda essa irradiante felicidade peguei os remos e remei, remei... o barco foi deslizando pelas águas da lagoa, se transformou numa imensa bola de luz e num segundo, ela estava lá, sentada com aqueles olhos castanhos quase esverdeados, o rosto fino e o sorriso mais lindo do mundo, um sorriso meigo, repleto de alegria e contagiante felicidade. Às vezes debruçada, como fazia antes, riscava como o seu dedinho as águas cristalinas, à procura de peixinhos coloridos, que vinham saltitantes brincar em torno de sua mãozinha.

Esta foi uma noite maravilhosa, nunca tinha me sentido tão radiante de felicidade antes.

Nita voltou para me ver mais algumas vezes. Eu pensava então, todas as vezes que ela me visitava, trazia consigo um pedacinho do céu. E, eu exultava de alegria e felicidade.

Mas, meu pai resolveu que eu tinha que estudar num centro mais adiantado. Nos mudamos para a cidade. Aqui o céu tem menos estrelas, mas aquela estrelinha nunca desapareceu, sempre esteve lá brincando, pulando para lá e para cá.

O certo é que ela nunca mais me visitou. Não como antes, mas eu sabia que sempre esteve do meu lado me amparando, vigiando, aconselhando, guardando como um bom anjo da guarda que era.

Ela queria que eu soubesse que estava sempre me observando, me ajudando como um anjo.

Eu cresci, me formei e me casei e ela sempre lá, sempre tomando conta de mim, meu anjo protetor, minha fé e minha esperança.

Eu nunca me esqueci daquele rosto lindo, daquele sorriso franco, daquele brilho que envolvia a todos. Era sem dúvida um anjo, e sempre acreditei que ela fosse um anjo e agora tenho saudades daquela menina meiga que ganhava a todos com seu sorriso.

Há alguns anos percebi que aquela estrelinha brincalhona ou desaparecera ou parara de brincar. Lembro-me bem que foi logo quando soubemos que Ângela, minha esposa, estava grávida.

Fiquei triste, será que aquele anjo de tanta candura ficou com ciúmes porque agora eu teria um filho e não olharia mais para o céu procurando-a? Será que aquela estrela brincalhona agora estava magoada? Será que ela deixara de me proteger?

Não, com certeza não era isto que tinha acontecido, e agora olhando minha filha já com cinco aninhos é que percebo. Nita voltou, são os mesmos olhos, o mesmo sorriso e a mesma felicidade franca e contagiante.

Agora sim percebi o quanto ela me amava, o quanto amava a todos, e agradeço a Deus por tê-la colocado em minha vida, em nossas vidas. Pena que o Bilú já não esteja mais entre nós para festejar conosco a volta desta nossa grande amiga.

Este é um testemunho da grande sabedoria de Deus, da bondade, fidelidade e amor com que Ele traça os caminhos e a história dos seus filhos, homens e anjos.



AUTOR: EDISON RODRIGUES PAULINO